2009-08-12

cinzas renascidas

está de dia. sei-o pelas paredes, já brancas com tom de sol. paredes brancas, nuas. não, não as sei de cor. vislumbro apenas rasgos de paredes brancas como estas, cheias noutros tempos. já foram doces, estas paredes nuas. já as soube de cor e continuo a desejar ardentemente tomar-lhes o gosto. mas agora é diferente, agora estão nuas. nuas e despojadas de qualquer sentimento açucarado.
já desnudei a mente sentido-lhes o cheiro, um dia. cheiro meu. cheiro acertado, puro como a neve, branco como as paredes que tomo por minhas. ainda o sinto, com as mãos gélidas. sempre as tive assim, frias, brancas, puras. sempre as tive assim, mais ao cheiro agora prata pálido, não descurando a beleza.
e é isto. sempre achei belo, este cheiro brilhante como o céu traçado pelas nuvens empoeiradas, cinzentas, retorcidas. só e apenas. não havia, nem há, arte nenhuma nisto. arte funcional, ou meramente ilusionista. arte de todo. arte colorida, máscaras bem disfarçadas. arte a preto e branco, antiga que parece que lhe mexes com sussurros. vida, gosto de lhe chamar, cheiro inanimado, então. cheiro nu. cheiro que se expira, não cheiro inspirado.
portanto, seja. já foi. só e apenas uma confirmação. só e apenas um desabafo. desabafei contigo, um dia, no tom de sol cheio que desejo. desabafei contigo frustrações esquecidas, feridas que já foram. hoje, desabafo que de belo, não tens nada. e é isto, só e apenas uma falta de beleza mal-entendida. porque hoje, já não desejo paredes nuas e enfadonhas, réstias de um sol que se pôs. já não sinto um cheiro que, agora vejo, é cinzento! e errante, empoeirado e retorcido como as nuvens que, um dia, me traçaram um mal-entendido.
chega, então. está bem que para bom entendedor meia palavra basta e eu não sou, nem fui, quando o açúcar ainda se derretia lentamente na minha língua pura de meias palavras. mas sim, já foi o bastante.
agora vou, deixa-me ir, belo mascarado. vou apurar o meu olfacto para sítios brilhantes, sem vestígios de pó que me façam torcer o nariz. onde a noite faça umas paredes brancas, cheias, as quais vou tomar o gosto lentamente (tenho uma eternidade, que estas sim, são paredes estáveis), prata como a tinta que outrora bebi sofregamente, que momentos fugazes são comigo.

3 comentários:

Tani disse...

muito origada por partilhares isto connosco. :)

Beatriz Cró disse...

Não sabe. Mas tu sabes do significado das palavras.

Poppins disse...

O teu blog transmite uma paz, Margarida... :)