2010-12-26

2010-12-22

amor é #9

quanto te perdi disseram-me com palavras dóceis e inférteis que continuaria a ter-me a mim, aos meus livros antigos escrevinhados nas margens e às minhas próprias palavras (diriam com isto que continuaria a viver?). num rasgo de boas aventuranças e num olhar em frente expirado acreditei que sim e fui saltitando pelo meio do que achei ser um vazio manchado de insectospretosdaquelesquevimosaoacordar e 'technicolores' (era assim que aparecia nos lápis, que culpa tenho eu de aparecer assim nos lápis?) extenuantes, entre palavras soltas e desconfiadas aqui e ali, por todo o meu mundo esverdeado que é um bosque de Alice palpitante. 
agora que te ganhei de novo, ainda que apenas uma inspiração momentânea por só estares aqui a trocar umas lâmpadas (juro que os teus olhos me fazem uma imensa comichão assim pregados nas minhas costas curvadas e nos dedos mindinhos dos meus pés por estar quase quase a voar neste espaço branco aqui tão perto), sei que todos os meus livros antigos escrevinhados nas margens e todas as minhas palavras, mais ou menos próprias, se foram no dia em que te perdi. e, cheia de boas aventuranças e num rasgo de sorriso inspirado, i'm all about love.

2010-12-21

raspadinhas

tens liberdade para alguma coisa. não ta deram para andares preocupado com o tipo que coisas que deves ou não pensar, com o tipo de relações que deves ou não ter. quando, na flor da idade, te dão a liberdade das chaves de casa, ou seja, a liberdade de sair porta fora e ir por um caminho qualquer, conhecido ou não, acompanhado de máscaras ou de pessoas com quem és o teu eu-verdade, há que aproveitar. podes fazer o que quiseres, mas não deixes de fazer. não deixes de o fazer porque o dia que vem tem de ser assim meio-assado, porque está na altura de arranjar casa e homem próprio, porque não gostas da rotina. não deixes que o teu cérebrozinho do século XXI, cheio de moral, ética e comodismo (ou não!) tire de ti a liberdade que ainda nem teve o tempo e o desenvolvimento das papilas gustativas suficiente para se apreciar. também não estou a dizer para não deixares de fazer o que não te apetece só porque tens sono e os olhos inchados de chorar ontem à noite. não te estou a dizer para não deixares de estragar relações só porque a tua sede de amizade ou fama ou orgulho (ou sei lá o que se sente por aí) é demasiada para conter cá dentro. é só... se te apetece ir dar uma volta maior, boa viagem do fundo do coração.

2010-12-16

glance

- e trocaram olhares assim muito depressa, levantaram-se da mesa tudo muito depressa muito sofrêgo quase que apaixonado vai na volta ele assim muito depressa soube que...
- pois, e então claro que ele disse...
- ouviste o que eu disse?
(não. ouvi-o dizer que tinha comprado um relógio novo e vi-o de relance no pulso pontoado a ossos perfeitamente esculpidos pelas minhas mãos, o relógio que lhe dissera para comprar e que era lindo de morrer, que havia de ser herança de família se ele a minha, reparei-lhe de fugida no trajeito da boca quando sobe o pescoço, acho que tinha o botão do casaco meio descosido, eu que adorava aquele casaco às risquinhas azulinho lindo lindo)
- sim, tudo muito depressa..
- achas normal?! depois vem dizer-me que sou a mulher da vida dele, uma manhã depois de eu ter adormecido a chorar o meu cérebro todinho em conjunto com a matéria de biologia, vem dizer-me isto tudo e depois é claro que para além de cérebro fico sem coração, sem norte, sem sangue nos pés, vem dizer-me isto tudo, achas normal?
- acho terrível, acho terrível...
- estás mesmo a ouvir?
(não. acabei de reparar na ferida que tem no nó do indicador direito, provavelmente foi contra um poste, anda sempre tão sem pés na terra... deve ter sido hoje que tem o bolso do casaco, aquele casaco lindo lindo, um bocado descosido, foi um puxão qualquer, se calhar assaltaram-no, ai meu Deus que o assaltaram, ai se ele se magoou, ai meu Deus que horror que vida)
- sim, não me estás a ver olhar para ti?
- estou estou, estou estou! mas pronto, o que é que eu faço?
- vais comigo para a aula que já entrámos e não foi neste pavilhão...
- não é este o pavilhão?
(não. mas ele tem alemão aqui...)
- és sempre a mesma, sinceramente!
(sinceramente, quando é que começo a olhar de frente para a (minha) vida?)

2010-12-11

és o meu Natal

mesmo que estas palavras sejam um pouco atabalhoadas, devido à roda de histeria e emoção que me fizeste viver a partir do momento em que senhora da loja me deu os parabéns porque eu a rir a rir a rir e a dizer que te queria muito muito ir ver (hoje sonhei que se não dissesse muito muito não sentia de verdade), todas as outras, formais, inspiradas, violentas e docinhas, são todas tuas. todas. e sejas o que fores quando cresceres, o teu nariz irrequieto não me deixa mentir quando digo que vais adorar pintar macacos e corações em panos sujos para depois irmos os dois jogar à bola (vais é rir-te à gargalhada). és o pleonasmo mais fofinho e pequenino e amoroso que eu conheço, e um dia vais ver como as figuras de estilo são a minha vida.

2010-12-03

chamo-me Margarida e sou um jardim

(não sei que direito tenho de escrever sobre mim dado que nunca o fiz por estar sempre comigo e assim não me achar de interesse geral.)
uma vez, num banco de jardim, disseram-me, em jeito de conversa poética, que Deus tinha posto as flores no mundo para o enfeitar e, portanto, para fazer as pessoas felizes. foi aí que, mais que flor, quis ser um jardim.
ainda sou uma menina. nunca ganhei prémios, nunca uma obra acabada, nunca um acto sem ponta da minha personalidade emotiva e impulsiva. mas, do alto da minha adolescência, disse “é por aqui que vou” – já sou uma mulher.
sou um depósito ajardinado de lições de vida, manhãs de praia, cicatrizes abertas e basicamente tudo o que me inspirar a contar histórias aos outros (não é isso o amor?), contando ainda com o meu egoísmo tímido cheio de sonhos e esperanças vãs, a minha descoordenação motora e trapalhice habitual e desorganização um tanto ou quanto planeada para que num instante um mundo conhecido, mas novo, à minha espera.
comecei pelo que sou actualmente porque tenho para mim que teoricamente, é pelo “hoje” que se começa. nascida em vésperas da revolução de Abril, vivi sempre na minha Damaia do coração e nunca o achei limitativo, por aumentar a sede de conhecer, a imaginação de viver e muito mais vantagens que se rimassem até discriminava. na minha vida e para mim, momentos dignos de palavras escritas são-nos todos, desde a minha Profissão de Fé à senhora que me perguntou porque chorava sentada no chão duma rua que já não me recordo qual, passando pela minha primeira composição e pelos beijos que me queimaram noites de estudo.
menina e flor em demasia para contar os meus feitos e recompensas, só me resta fazer com que me torne um pouco jardim e mulher para ser capaz de os contar, sem que ninguém os escreva por mim.

(só porque o stor de literatura fez questão de ler para a turma inteira e eu fiquei a morrer de alegria quando mo contaram, já que hoje foi dia de cama.)

2010-12-01

não sei de que fala você aqui dentro

porque é que fui eu que fiquei aqui? porque é que fui eu que tive de nascer com o sonho, não de escrever, mas de ser poesia? eu sei que não vou ser nada na vida, e os meus pressentimentos dizem-me que não vou durar muito por aqui. não vejo o tempo passar, vivo de passados decrescentes e de presentes futéis e nao-desejados, de investigações levianas e sem sentido até para mim que nunca pricipiei a fazê-lo, procuro um chão que foi mudado, onde escrevi já cartas de amor a mim mesma, não sei o porquê das vírgulas já que eu ponteada de finais, nunca sei onde tenho ido, depois reparo que a lado nenhum porque fui eu que tive de cá ficar, comigo, não sei porque só eu é que tenho sempre de ficar comigo, nunca disse a ninguém que gostava nem de mim nem de ti, poderia dizer que o amor salgado e saudoso é o único elemento coeso na maior parte dos pedaços da minha quase-vida, cheia de paragens de autocarro onde não paro nem arranco, surpreendi-me a mim mesma e por mim fiquei, fui ficando, continuo a ficar, pareço uma flor de antigamente sempre tão apertada e cheia de espinhos, mas não posso, não sei de que fala você, amor e poesia o que será isso, gostava de retornar a criança e aí recusar todas as palavras que me quisessem enfiar nos ossos da base do pescoço (acho que é daí que nascem as minhas letras), não posso, amor e margaridas nem coesos nem coerentes, não posso, continuo sem nunca poder falar, escrever, falar ou escrever esses que são os meus únicos amores e poetas (soubesse eu o que amar e falar significa), não posso, não quero e continuo a não poder e a não querer ficar, mas fico, fico sempre, não por mim e não por ti, porque eu nada na minha quase-vida.