Família, amigos, cultura, cabeça, coração, linhas, céu, mãos. Família, amigos, cultura, cabeça, coração, linhas, céu, mãos. Vá, repete, mais uma vez, estou aqui para te dar força quando já não o sabes ser. Repete, vê, repara, tens muito, é bom, e eu já estou a desesperar por não o veres. Tens quem te abrace no escuro, tens-te a ti nas horas de tédio e miséria, com inspiração suficiente para olhares para o céu quando não há pedaço de ti que não esteja partido, mas sabes-te de punhos cerrados para não te deixares desaparecer. Sabes a maneira exacta de dar magia ao teu dia, ao teu espreguiçar, ao teu pé na poça. Pára de bater com a cabeça nos joelhos e beber soro porque gostas da sensação de lábios secos, pára. Tens isso tudo, coração, e eu só te tenho a ti.
2010-01-18
2010-01-17
o corrimão era verde
estavamos os dois sentados numas escadas das traseiras dum prédio qualquer, cheio de grafitis racistas e asneiras mal ditas, mal desenhadas e mal interpretadas. eu tinha nojo daquelas escadas, de todas as pastilhas coladas em pedras reclusas num mundo que não mais se constrói. tinha nojo, mas a minha avó andava por aí e a flor que me querias dar murchava por amanhã. era reles e decadente mas havia paz quando mergulhava os meus ouvidos na tua camisola de lã e os meu olhos só viam pedras presas por entre ervas daninhas. e aquilo chegava para afastar as saias da minha avó, de quem herdara a falta de paz e o gosto pelo vento.
trazias a flor mergulhada num liquido sem cor, tal asneira sibilante. amarguinha, a flor que me ias dar ia murchar já por aquelas horas de paz colada aos meus ouvidos. trouxeste o jazz que te pedi, ouvimos com o copo e a flor pelas horas dos finados. não haviam frases tiradas à pressão, para nós chegavam as que saíam porque tinha de ser, e não mais nos demoravamos em conversas longas e de vidas que não as nossas, com copos e flores pela metade. quanto mais as histórias dos nossos nomes fotografadas por satélite, à distância de anos-luz que iam morrer antes mesmo de lá chegarmos. o silêncio pela metade servia-nos. tu não gostavas das saias de fazenda da minha avó e eu não gostava da herança que ela me dera. dela não tinha o todo inteiro que era desde que tinha a minha idade e procurava paz em traseiras de prédios que não tinham grafitis. era de metades e a mão já nem chegava para contar quantas tinha. dizias que se houvesse alguma história a anos-luz para contar seria a de que pessoas às metades se juntavam e continuavam sem fazer um todo inteiro. nunca fomos um, nunca o seremos. dá graças, meu amor, dá graças aos anjos, às flores e aos copos.
trazias a flor mergulhada num liquido sem cor, tal asneira sibilante. amarguinha, a flor que me ias dar ia murchar já por aquelas horas de paz colada aos meus ouvidos. trouxeste o jazz que te pedi, ouvimos com o copo e a flor pelas horas dos finados. não haviam frases tiradas à pressão, para nós chegavam as que saíam porque tinha de ser, e não mais nos demoravamos em conversas longas e de vidas que não as nossas, com copos e flores pela metade. quanto mais as histórias dos nossos nomes fotografadas por satélite, à distância de anos-luz que iam morrer antes mesmo de lá chegarmos. o silêncio pela metade servia-nos. tu não gostavas das saias de fazenda da minha avó e eu não gostava da herança que ela me dera. dela não tinha o todo inteiro que era desde que tinha a minha idade e procurava paz em traseiras de prédios que não tinham grafitis. era de metades e a mão já nem chegava para contar quantas tinha. dizias que se houvesse alguma história a anos-luz para contar seria a de que pessoas às metades se juntavam e continuavam sem fazer um todo inteiro. nunca fomos um, nunca o seremos. dá graças, meu amor, dá graças aos anjos, às flores e aos copos.
2010-01-15
olha para a frente senão cais
e eu estava ali, sentada no muro, foste tu que fizeste isto tudo, foste a chapada na cara, a delicadeza inocente, a pedra a ferver, queimaste-me, pedra parva, queimaste-me, e agora o meu coração ficou não-estático, eu que gostava do silêncio, eu que nunca tinha sonhos iguais e podias tirar o cavalinho da chuva que não ia ficar maluca nem virar o cronómetro, mas agora estou ali, sentada no muro, tu não me vês, houve qualquer coisa em ti que mudou, agora és linear, eu que adormecia tão bem no teu balancé, partiste o pé, mas já me viste a fazer poesia? olha para a frente e vai a correr, eu estive ali sentada no muro, já corri essas voltas todas, saltei em poças sem molhar o cabelo porque tinha um gorro novo, mas depois cai de cara e a máscara saltou também, estivera antes sentada no muro que as formigas não sabem ver humanos porque não têm vida para novelas mexicanas, e eu também não, odeio televisão, mas já me viste a fazer poesia? sai da frente que eu quero-me deitar, para ter sonhos iguais, jurei eu para nunca mais, mas já me viste a fazer poesia? e tira o cavalinho da chuva, está a chover e eu estou sentada no muro, virei o cronómetro, estou maluca.
2010-01-10
eu vou estar nas bancadas. ou não
tomar decisões é das coisas mais enfeitiçantes do mundo. digo, se fosse uma desnaturada com as palavras, o mais certo era começar a dissertar sobre a emoção mais poderosa que sabiamos pertencer-nos. tomar decisões. pena elas serem as melhores amigas da flor cá de dentro, que é a coisa mais timida que eu conheço e não me deixa dizer nada da boca para fora.
mas a flor concorda comigo quando digo que tomar decisões é magia. seus criticos de circo, estou para ver o vosso número tresloucado em comparação com o mágico que enche bilheteiras e é empresa de mudanças de corpo e alma. ele não quer mudar o mundo, mágico que é mágico como ele só quer tomar decisões. mágico que é magico como ele só quer mudar alguma coisa. e vocês, meus caros fala-barato?
quentinho
2010-01-08
amor é #3
casa. dançar o rock n'roll, ver o arco-iris e saltar para um monte de folhas secas. paz, ler do mesmo livro, estar na mesma página. pode ser um na primeira e outro na última, vá. angústia. verem o nosso nariz vermelho, os olhos inchados e a cara manchada, mas darem-nos beijinhos nos olhos de qualquer maneira. é imprudência, comer na cama e não se lembrar que as migalhas fazem cócegas nos pés, dizer ao pai que já não é o único homem nesta vida, homem de H maduro e nosso. amor é pressa mas deixa andar. é raiva e deixar-te esmurrar-lhe o peito porque sabe que precisas dum saco de boxe que dê beijinhos. amor não é fazer directas e faltar às aulas. amor é fazer directas para ver o nascer do sol e faltar às aulas para ir a um museu.
2010-01-05
geleia podre
acaba por ser o mesmo que tomar banho numa galeria de arte. é tudo tão mais pessoal. fogo, aprende que sedução não é comigo, nem vice-versa. experimenta queimar-te, molhares os lábios com a lingua e sentires que o doce da tua boca já se foi. não és menino de bronze, qual ouro metálico. trapos, diz melhor com o meu cabelo. restos de tule a esvoaçarem pelas minhas pestanas. e uma garagem qualquer, cinzenta, farrusca dos anos e travagens. sedução não diz com o meu cabelo, faz parecer uma boneca esturricada. só te faltava isso, fala francês agora. fogo, deixa-me, tenho o nariz entupido e não consigo dizer os r's carregados de amor de almofada. romanticida, nem de tocar piano de lembras, nem de como os teus olhos brilhavam com a àgua suja do Tejo. deixa-me, que não te (re, amor de almofada)conheço e o doce de ti já foi.
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