2010-06-20

desculpas

a bandeira, a meia haste, acariciava as agulhas quentes do pinheiro (não é um pinheiro) cinzento pelo ar frio da madrugada, a pedir calor. o meu pinheiro, disse ela para a bandeira, a meia haste, descendo a rua e apertando o casaco contra si, a pedir calor. com voz mais pura, sentou-se no chão português sem desenhos e começou a narrar os segundos fantasiosos da alegria que o frio da manhã lhe trazia. a bandeira, a meia haste, envergonhou-se no pinheiro e ela, com voz pura, narrou-lhe isso mesmo. a bandeira deixou de se sentir envergonhada; mas sentiu-se triste, era uma desculpa para a menina, uma desculpa para ela contar histórias. passou uma senhora. a menina, com voz pura, contou-lhe da bandeira: àquela hora os que passavam eram boa gente, gente capaz de se sentar no chão e falar. era uma menina loira, olhos azuis e pouco da vida (não era pouco da vida) e uma senhora que, depois de muito rebolar na cama, se levantou para se sentar num chão que lhe era alegria. eram duas mulheres, uma bandeira e uma árvore (não um pinheiro): eram uma desculpa para escrever.

2010-06-06

céu limpo

dizem que os poetas são sofridos e que as pessoas que se usam das letras para não sofrerem depressões não conseguem escrever quando estão minimamente felizes e é verdade. eu que o diga! estou minimamente feliz e estou triste com a minha atitude perante as palavras, essas que me tiram dos picos e ensinam a dançar. mas, e porque elas são minhas amigas, viram ter comigo com a mesma força e alma de sempre (agora que eu tinha de ir fazer xixi e aquecer os pés). acho que vieram para se vingar e, como dá para ver, estou-lhes a fazer o favor.
criou-se o estereotipo de que o obscuro, o amargo e o sofrimento são muito dificeís de descrever. e são! por isso é que há mares e mares de tinta com lágrimas derramadas em cima. de fazer chorar o meu avô! e o meu avô não chora (lá por causa das teorias dele). mas eu e as palavras com a mínima felicidade à mistura não dá. isso e a expressão 'more than words'. também não dá. o facto não é que as palavras não chegam. somos nós, sou eu vá (eu é que devo ser aqui a esquisita), que não chego lá. não tenho a capacidade de relacionar a palavra nuvem com amor puro. por isso é que não escrevo quando estou feliz. há em mim o medo de estragar aquilo que é tanto quanto são as palavras. tenho medo. tirem-me dos picos.

2010-05-31

os meus direitos dos homens

aquelas pessoas que pensam e vestem e posam para as fotos do hi5/facebook/o raio que o parta e acham e criticam e namoram e escrevem (esta muito especialmente) todas, tooooodas da mesma maneira complicam-me com o sistema que é uma coisa doida. acho que isso sobressai muito por aqui, mas é verdade! e depois riem-se assim: aii estou-me a divertir tanto, ainda bem que a máquina é minha para chegar às tantas e passar isto já para o computador! a sério?! a sério?! isto revolta-me! e nem falo das compras toda a santa tarde livre que apanham. não, falo. se ao menos comprassem uma roupita que lhes valesse a pena, um bocadinho mesmo a nossa cara, um bocadinho diferente do resto, um bocadinho arte, aí até se dava o jeito. mas não, é: aii vi isto ontem lá na escola, vamos lá comprar um parecido. depois é: ai que tenho que estar tão bem e não posso mandar um guinchinho nem coisa que o valha, depois olham para mim de lado!
se calhar sou eu que sou criança. mas esta gente parece que perdeu toda o direito à parvoíce.

2010-05-25

a minha casa futura vai ter aquelas escadas de cordas para subir para a cama!

isto de viver a vida completamente plena não é muito comigo. e então isto de palavras anda só mesmo por papéis. ups! vou só dar umas voltinhas e já cá venho parar outra vez.

2010-05-18

queres ser sorriso comigo?

eu vou ser pequenina para sempre, vooooou! e nem quero comer chupas nem rebuçados. mas vou continuar a sujar a cara de gelado! e vou brincar com a vida e ser muito amiguinha dela! e quando estiver triste, vou buscar palavras, elas gostam de mim, sabes?, e por isso dão-me beijinhos nas feridas e dão-me flores de sorrisos! quando estiveres triste vem ter comigo, eu dou-te palavras também. e elas dão-te flores de sorrisos, elas dão-me a ti. vais ver!

2010-05-13

amor é #6

teres bolhas nos pés e não estares cansada. e nem estou aqui a dançar em palavras bonitas, cheias de sentidos figurados e ilustrados a aguarela abstracta. são mesmo bolhas nos pés, feias, mas que estão lá, nos teus pés, e tu tens que lá pôr a agulha ou lá o que é. mas mesmo assim continuas a ir sabe-se lá para onde - para onde tiveres de ir. e não te sentes cansada, apesar de te sair do corpo. é feio e duro, há cócó na rua e tu nem vês, porque, para ti, há ali amor. e então não estás cansada. (nem suja)

2010-05-06

ai aflito

ela olhava fundo nos olhos dele e num clarão via-se sentada num chão qualquer de madeira clara, de cortinados brancos a deixar entrar muita luz, muita luz, luz dum dia inocente, clarinho, de calor ameno, cabelos num tocar levezinho no ombro rápido, nada de tapar olhos nem de nós absurdos, só um ventinho e um amarelo raiado a entrarem pela janela e a reflectirem na madeira clara quase espelho, onde ela estava sentada, pernas muito tortas e costas muito dobradas e cabeça muito baixa e ela já sem ver luz alguma, um aberto qualquer muito escuro ali na zona das costelas, mais acima das costelas, não nas costelas propriamente, mas um aberto muito fundo, quase que lhe parecia os olhos dele, e ela via-se sem se lembrar dos olhos dele, tudo já muito escuro, madeira envelhecida e cortinados cinzento urbano, qualquer coisa impessoal, um dia já feito noite sabia lá ela por onde tinham ido as horas, sabia dum atalho cortando à esquerda na subida, mas já se esquecera então, tinha lá ido com olhos já nem sabia de quem, e tudo muito escuro, muito aberto e onde estou eu, de cabeça muito baixa à procura do coração, ela que nunca se lembrava dela, tinha cabeça de ar meio poluído era o que era. de repente um apagão e os olhos dele já bem no fundo de si.
- sobe, que depois cortamos à esquerda.