2010-01-15

olha para a frente senão cais

e eu estava ali, sentada no muro, foste tu que fizeste isto tudo, foste a chapada na cara, a delicadeza inocente, a pedra a ferver, queimaste-me, pedra parva, queimaste-me, e agora o meu coração ficou não-estático, eu que gostava do silêncio, eu que nunca tinha sonhos iguais e podias tirar o cavalinho da chuva que não ia ficar maluca nem virar o cronómetro, mas agora estou ali, sentada no muro, tu não me vês, houve qualquer coisa em ti que mudou, agora és linear, eu que adormecia tão bem no teu balancé, partiste o pé, mas já me viste a fazer poesia? olha para a frente e vai a correr, eu estive ali sentada no muro, já corri essas voltas todas, saltei em poças sem molhar o cabelo porque tinha um gorro novo, mas depois cai de cara e a máscara saltou também, estivera antes sentada no muro que as formigas não sabem ver humanos porque não têm vida para novelas mexicanas, e eu também não, odeio televisão, mas já me viste a fazer poesia? sai da frente que eu quero-me deitar, para ter sonhos iguais, jurei eu para nunca mais, mas já me viste a fazer poesia? e tira o cavalinho da chuva, está a chover e eu estou sentada no muro, virei o cronómetro, estou maluca.

2010-01-10

tenho dito #5

que é por nos cingirmos às regras que elas acabam por se distorcer.

eu vou estar nas bancadas. ou não

tomar decisões é das coisas mais enfeitiçantes do mundo. digo, se fosse uma desnaturada com as palavras, o mais certo era começar a dissertar sobre a emoção mais poderosa que sabiamos pertencer-nos. tomar decisões. pena elas serem as melhores amigas da flor cá de dentro, que é a coisa mais timida que eu conheço e não me deixa dizer nada da boca para fora.

mas a flor concorda comigo quando digo que tomar decisões é magia. seus criticos de circo, estou para ver o vosso número tresloucado em comparação com o mágico que enche bilheteiras e é empresa de mudanças de corpo e alma. ele não quer mudar o mundo, mágico que é mágico como ele só quer tomar decisões. mágico que é magico como ele só quer mudar alguma coisa. e vocês, meus caros fala-barato?

quentinho

quero que saibas que perdes muito. ao teu lado está uma das 7 maravilhas do mundo deitada ao sol sem fazer nada, porque o único que a venera ainda é o velho que manda pão aos pombos e gaivotas, dum saco velho do continente. tem liberdade para tal, ninguém repara que as luzes do nascimento que passou ainda por lá andam. por isso, vê se te mexes. perde-te e finge que és turista na tua própria cidade, já dizia um pacote de açúcar. pede para te tirarem fotografias nos locais simbolicos, enquanto os que te interessam pairam mesmo no reverso da fotografia. fala com almas que não as tuas sem medos, porque quando és turista não há alma que resista. canta e uiva no meio da rua porque o sem abrigo em que ias tropeçando ainda se vai alegrando com a tua voz esganiçada. agarra uns quantos balões, que têm a sua graça quando são esquecidos em ruas cheias de diferença, que o oposto está fora de moda e ainda há sorrisos que se aproveitem. salta, perde-te e não te encontres, depois vai para casa e repara que nunca saiste de lá.

2010-01-08

amor é #3

casa. dançar o rock n'roll, ver o arco-iris e saltar para um monte de folhas secas. paz, ler do mesmo livro, estar na mesma página. pode ser um na primeira e outro na última, vá. angústia. verem o nosso nariz vermelho, os olhos inchados e a cara manchada, mas darem-nos beijinhos nos olhos de qualquer maneira. é imprudência, comer na cama e não se lembrar que as migalhas fazem cócegas nos pés, dizer ao pai que já não é o único homem nesta vida, homem de H maduro e nosso. amor é pressa mas deixa andar. é raiva e deixar-te esmurrar-lhe o peito porque sabe que precisas dum saco de boxe que dê beijinhos. amor não é fazer directas e faltar às aulas. amor é fazer directas para ver o nascer do sol e faltar às aulas para ir a um museu.

2010-01-05

geleia podre

acaba por ser o mesmo que tomar banho numa galeria de arte. é tudo tão mais pessoal. fogo, aprende que sedução não é comigo, nem vice-versa. experimenta queimar-te, molhares os lábios com a lingua e sentires que o doce da tua boca já se foi. não és menino de bronze, qual ouro metálico. trapos, diz melhor com o meu cabelo. restos de tule a esvoaçarem pelas minhas pestanas. e uma garagem qualquer, cinzenta, farrusca dos anos e travagens. sedução não diz com o meu cabelo, faz parecer uma boneca esturricada. só te faltava isso, fala francês agora. fogo, deixa-me, tenho o nariz entupido e não consigo dizer os r's carregados de amor de almofada. romanticida, nem de tocar piano de lembras, nem de como os teus olhos brilhavam com a àgua suja do Tejo. deixa-me, que não te (re, amor de almofada)conheço e o doce de ti já foi.

2009-12-31

tenho dito #4

NÃO SEI O QUE QUERO PARA 2010.
(podem ter peninha por ser uma inresolvida e darem-me tudo do melhor que têm para dar? ;)

2009-12-29

mim para mim

tenho raiva de ti por nunca me deixares contar o que passamos juntas. mais, tenho raiva de ti por só tu, flor feia, saberes tentar enfeitiçar com palavras. mas não penses que te vais esconder sempre atrás de mim. aprende a ver a vida de frente, menina, e não só o céu. aprende de uma vez que o mundo onde vives já não gosta de flores de campo, não que queira que deixes de o ser. gostava era que não te escondesses atrás de mim, cosmopolita assumida, que se tem de deixar levar pelos teus devaneios suaves e frescos.
tenho raiva de ti por nunca me deixares contar o que passamos juntas. flor feia, a vergonha é moda antiga, e apesar de durona, sei partilhar. ela herdou de ti o cabelo selvagem que não sabe se liso ou ondulado; mas por mim, consegue erguer o seu pulso firme. não sou assim tão má como me pintas - e como gostas de pintar, Céus - e, quer queiras quer não, somos uma só, de cabelo selvagem e pulso firme. não uma só como amantes cegos e lamechas, mas uma só. literal e figuradamente. e por isso te digo: não é assim tão mau seres-me, flor feia.