quero gritar devagarinho. quero gritar devagarinho porque eu mil e quinhentos gritos separados pela mesma dor, e se mil e quinhentos gritos todos separados saíssem pela minha garganta, eu, carne e coração a menos, pó. e o pó não grita. faz atchins separados todos pela mesa comichão, e eu, então, uma doença infernal e incurável de anomalias todas separadas pela mesma dor. quero gritar devagar porque assim talvez possa voltar a ser uma unidade como as crónicas de Lobo Antunes não sei em que lugar no mundo, eu que já nem gosto da chuva que me molha e não me deixa olhar em frente por causa dos óculos. quero gritar devagar porque pode ser que assim talvez possa voltar a ter voz nos dedos, mas as minhas unhas, essas, roxas e afónicas do frio que me anestesia a única coisa que eu, asseguradamente, tenho: dedos dos pés. assim, calo-me. odeio-te em silêncio por me encaracolares o cabelo (eu sempre tão lisa e sedosa), mato com os olhos as aranhas nas escadas mais escuras e represento-te a mímica mais perfeita e plástica que possas ver, danço sozinha e no escuro os passos que aprendi, conformada, no outro dia (porquê tantos adjectivos entre vírgulas?), e toco apaixonadamente estátuas de pedra mais fria que a minha mão esquerda, mil e quinhentos bocejos todos juntos. já não gosto de àgua clara do céu, perdi os meus anos, os bocejos pegam-se-me sempre e vou-me embora. caladinha.
2010-11-29
2010-11-28
com amor
alguém me ajude, vou ter negativa à minha disciplina favorita! mesmo assim, noticiar-vos a minha vida faz-me muito feliz.
2010-11-24
limites
dói quando ouço música. dói quando jogo às cartas. dói quando ando na rua mas isso é só por causa da anca. sinceramente, tenho um pico no dedo mindinho que nem com palavras lá vai. é por isso que me dói quando os acordes tocam aqui. dói quando vos dói porque eu tenho de sentir alguma coisa, ainda assim. sinceramente, a dor não é assim tão má. (é só a anca)
2010-11-22
da música portuguesa
se vais jogar até morrer, habilitas-te a perder
se não tens nada para ganhar, o que é que tu queres apostar?
B FACHADA
2010-11-18
(despreocupação para com o título)
(antes de tudo, e porque gosto muito muito dos meus seguidores, aqui a flor agradece muito muito se me derem uns cheirinhos para a minha autobiografia de literatura. shiu que é segredo, mas vocês, sem querer, sabem muito muito sobre mim. podem mandar-me as vossas ideias para o mail ou por comentários, fico-vos eternamente agradecida!)
ela até estava cheia de sono, não sabia o porquê de ali ter ido parar, nem sequer ironizar lhe apetecia e uma sede enormíssima duma água que raramente bebia apareceu-lhe não na garganta, na barriga, e ela refastelada como uma postura que bem treinada não deixava e mesmo assim sem se importar, um desleixo para com o sono, um vai-te lixar para a vida ou o que sejas vai-te lixar, no entanto uma realização despreocupada e triste, uma felicidade vazia mas extrema, e uma luz de vez em quando e ela contente por tanta gente a responder-lhe torto, ela contente porque responder torto sinal de conhecer almas e corações e seja o que for que existe dentro (ou fora, nunca sei onde paira o que quer que seja que existe) de nós, e num instante, numa conclusão e num parágrafo só, ela feliz, cheia e despreocupada com o facto de tanta gente lhe amar o que quer que seja que ela lá tenha dentro.
2010-11-14
2010-11-13
andré
lembra-te sempre do dia de hoje. de nós os dois a brincarmos aos mergulhadores no banco do jardim um bocadinho longe da tua casa onde a tua mãe só te deixa ir quando sou eu a pedir para te ir buscar à escola. lembra-te sempre de quem ganhou ao 'rir mais alto': fui eu, porque eu é que sei, que eu sou mais velha! - acho que acaba por ser a única coisa que muda com o ser mais velho: podes dizer eu sei muito mais vezes, com todas as conotações possíveis e imaginárias (shiu, nunca vais saber nada por de mais). mas lembra-te sempre, por favor, que brinquei contigo e tu até ficaste mais alto que eu em cima daquele baloiço donde eu cai e tu não vais dizer a ninguém como porque é um segredo só nosso. se te lembrares sempre do dia de hoje, prometo do fundo do meu coração de flor (sou a flor que um dia desenhaste no papel do restaurante e me deste para sempre) que irás ser muito mais feliz. e quando alguém te disser que já não tens idade para brincar aos mergulhadores e andares de baloiço, manda-o, como tu dizes, às relvas.
2010-11-11
se calhar não quero ver
uma a uma, dexou cair as cartas que lhe escrevera. todas elas: no chão, na arca dos gelados do café, na paragem do 711, na ponte, na gaiola dos canários do avô, numa das gavetas do melhor amigo. todas elas, inteiras e intactas num anonimato previsível. aí, principiou a arrancar de si todas as suas partes constituintes cujo 'seu' já não siginificava nada. encontrou-se assim num chão de ladrilho inspirado pela romanização, e aí uma confusão de risos, palavras, pernas, (não os cabelos, sempre independentes de mais os cabelos), camisas, pestanas, papel magoado, verniz das unhas (tão anónimo esse), impotência, lençóis, sangue, teclas de computador - um g gasto -, carne e qualquer coisa como se alma, tudo num chão tão seu país, o chão um país, aquele corpo um país em si também. e por aí ficou, nação ou não, uma confusão de tudo, de todas as elas sejam quais forem, dias e dias sem sequer um olá ao sol (esta gente sempre tão mal educada para com o sol), uma confusão de tudo e tudo sempre muito mais que vivo e fresco, sangue vivo e carne fresca que continua a arder nas extremidades. chegou uma semana qualquer que não viu passar por si e recompôs-se, fez-se o corpo seu de todo, uma e outra vez. aprendeu a ser chão, e seguiu.
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