2010-01-21

o dia em que odeei a fnac

entrei e tropecei num quadro de serviço de chá. nem liguei, raios para o egocentrismo, tinha causado má impressão. levantei a cabeça, a senhora limpava livros atrás de um caixote; boa tarde. boa tarde menina. não sabia o que procurar, estava um chapéu atigresado pousado em cima duma cadeira. há quantas décadas? subi as escadas, voltei a tropeçar. capa roxa, Sr. Justo. segui, águas passadas não movem moinhos, tal qual as minhas opiniões formadas, leite derramado e justiça por aqui. literatura portuguesa, mil e um titulos a escorrerem-me pelas mãos. É ISTO!, e eu salto para trás. baixo a cabeça, livros empilhados, cabeça entre as mãos, sorriso sabe-se lá onde. volto atrás, livros recentes empilhados num caixote. entra um senhor, pacato de ar de seduções passadas. deviam ainda mover moinhos. boa tarde. pela primeira vez, olho em volta. que pó acolhedor, havia escadas ao fundo. posso descer? pode pode menina, não ligue à desarrumação. ligo pois, desco as escadas, capas mil a desfilarem por mim. aqui o tempo foi de férias, só as lâmpadas se ouviam. e tão bem que destoavam. uma porta escancarada, a minha curiosidade a espreitar lá para dentro. molduras encostadas, molduras das de mortos rigidos, quantos mortos já terão passado ali? uma cadeira de rodinhas, das primeiras que existiram, apeteceu-me sentar nela. a minha descoordenação impede-me, tropeço outra vez. saco de revistas de papelaria recente, destoava. lá dentro, Diários de Noticias que são hoje àguas passadas, que movem moinhos ainda. 1974, só se ouvem as lâmpadas e nao tenho medo de deixar o sonho entrar. um carro miniatura de colecção. apetece-me levá-lo para casa e cuidar dele, fingindo ser colecção manienta do meu pai. subo as escadas, palavras a olhar para mim. livros recentes empilhados em caixotes, livros antigos arrumados em estantes. o busto do camões ferido pela erosão, o fernando pessoa sem cabeça. cheira a sonho. literatura portuguesa, mil e um títulos e mais um preso, vivências e crepúsculo, o sonho entrou, as folhas amareladas são minhas.

4 comentários:

Cátia Vieira disse...

wooow, tenho que experimentar essa sensação! :D

al disse...

pareces eu! conheço tão bem esse entusiasmo e excitação por ver, cheirar, tocar coisas antigas x)

Matilde Cê disse...

e as brancas, de quem são?
não gostas delas?

lara dantas disse...

escreves tão bem.
para mim, seja um livro antigo ou novo, eu gosto desde que passe mensagem, tenha sentimento.