2011-09-14

amor é #12

não precisares sequer de ti para seres tu mesma.

das limpezas

e a dançar caí sangrei. acordei estremunhada, só e abandonada, como naquelas rimas que fazia quando as minhas palavras ainda timidamente poderosas, só assim sem todo o desdém que se ganha depois de muito pisar o mesmo chão. de tanto assim dançar ritmei o mesmo azulejo vezes e vezes sem conta - caí sangrei.
espero ser o hoje este dia em que acordei estremunhada e o meu o sangue que lavou para sempre as memórias do papel onde escrevi desde as rimas, digo, do chão onde dancei desde que o sapateado nas unhas dos meus pés. espero, não de pasmar a olhar para ti nas horas mortas, sem saber o porquê de nunca te ir esquecer na porra da minha vida que tem coisas de mais, um mundo inteiro veja lá, um mundo inteiro só para te perder e te esquecer quase. um mundo ideal, para mim e para aladino, era ter-te a ti e a um papel novo na cabeça todos os dias, percebes? sabes? eu caí e deitei sangue. porquê o sangue sinceramente? porquê sapateado, o velho, o desgastado, porquê a perseguição das rimas do quarto ano quando eu só te quero a ti e a um papel novo e limpo para sempre? porquê tanta coisa e eu sem espaço para dançar, as pessoas a espezinharem-me aquando o incêndio das suas almas? dançar em lume brando contigo, sempre foi escrever. assim, dancei contigo num papel novo para sempre.

2011-08-11

na França então frio

- Por favor, apertem os cintos de segurança e desliguem todos os aparelhos electrónicos. A viagem terá a duração de 2h45.
(porque é que será que duas horas e quarenta e cinco duram mais que uma vida? ela tem de dezasseis anos - estas duas a papaguear ao meu lado, num dizquedisse intermitente e aioqueeutefazia ao hospedeiro, bem que podem ser as suas melhores amigas. e agora, os seus dezasseis anos duraram tanto como a minha vida numa França de emigrantes simpáticos, bonacheirões e mal pagos - duas horas e quarenta e cinco, mais coisa menos coisa.
nesses dezasseis anos perguntaram-lhe pelo pai, decerto quase tanto quanto eu perguntei pela minha filha. o namorado - Deus, já tem idade para namorar! - abraçou-a quando as lágrimas, daquela saudade embrenhada nas marés de lua de um país que já nem sei se meu, romperam ao lembrar um pai desterrado do qual não conhece nem mimo nem coração. e em vez de a querer só minha, cruzei os dedos e rezei, cheio de dor nos olhos - e nos ouvidos apertados do avião - para que um moço de tento na língua e técnica no ferro de engomar - tenho a certeza que ela não sabe passar a ferro, igualzinha a mim que não sabe passar a ferro - a proteja dos monstros da vida, dos bichos na parede, dos homens maus.
quero, ainda e apesar (a pesar também), dar-lhe tudo. a mousse e os biscoitos do avião que dou a estas rapariguinhas ternas e atrevidas, que tanto dão também de si nas músicas que cantam baixinho e quando me perguntam, rosadas de vergonha, se quero jogar às cartas. dar-lhe-ia tudo, a sério que sim, há dezasseis anos para cá se as suas fraldas não me custassem a ida para França. como é que em dez segundos, depois de receber a bagagem, lhe dou esse tudo de dezasseis anos? as papas à boca, os castigos, os beijinhos no dia de anos, as anedotas às suas melhores amigas - pensando bem devia ter jogado às cartas -, o momento aterrador em que me apresenta ao rapaz que lhe dá a mão?)
- A Lufthansa deseja-lhe uma boa estadia em Lisboa.
(...)
- Pai.
- Mariana.
(como é possível um tudo de dezasseis anos bem à minha espera nestes não dez, dois segundos?)

2011-08-02

como se uma almôndega gigante num frigorífico, no maior dos maiores mais incríveis niveís de refrigeração, bem no meio da minha garganta que não anda nem desanda, e depois parece que não sai dali nunca porque as coisas algum dia haviam de mudar e na Alemanha afinal há frio.

2011-07-25

wc pato

sempre sonhei vir aqui de mochila às costas e amor pela mão. é de repente primorosa a maneira como pegas nela agora que nós aqui, no sítio onde sempre sonhei vir, mesmo que com as tuas cócegas chatinhas e eu a querer ver a paisagem, tu a tirares as tão tuas fotografias aos passarocos bonitos e eu a querer dar beijinhos. quando era mais nova e andavamos há uns quantos meses (nós que pensávamos ser tanto tempo!), perguntáva-me umas três vezes por dia se era assim, tão engraçadotes, que nos iamos continuar a amar. e neste instante é de repente que te vejo a pegar assim na minha mão e apetece-me tanto dar-te uma gargalhada e um beijinho... 
hoje à noite como já somos grandes, as paisagens e os pássaros vão ficar na janela e eu, que paraíso!, vou ficar nos teus braços cheia de cócegas e beijinhos. vamos amar-nos como nos filmes de adultos que somos e rir-nos de nós como as criançolas que nunca deixámos de ser.vou poder, assim, dizer que sempre sonhei vir aqui com o teu amor na minha mão.
enquanto a noite não vem, anda mais depressa, o Gerês é muito grande e a mochila cansa-me nas costas! vamos dar beijinhos aos pássaros nas cascatas e vamos os dois tirar fotografias pelo meio das pedras. hão-de orgulhar-se de nós!
e agora tenho de sair da casa-de-banho e olhar para as nuvens todas ao meu lado nesta máquina que me leva não sei para onde pelo meio de dores de dentes e ouvidos. quem é que inventou o turismo além-fronteiras? e porque raio há janelas nos aviões se é tudo tão inalcançável à distância duma queda que passamos a viagem a imaginar? e ainda por cima não vens comigo, sentado no banco da janela que eu não gosto?! vou voltar para a casa-de-banho. irra, viva a realidade aumentada das sanitas.

2011-07-13

o amor não faz qualquer tipo de sentido e qualquer tipo de sentido não faz um amor deste texto

espremeste-me o cérebro. e com isto tudo bem espremidinho, sobraram os lóbulos das orelhas apenas e, kinder surpresa!, não importa. gostas dos meus lóbulos das orelhas e o meu cérebro é dispensável nestes dias. verdade? agora as lágrimas vão passar a correr pelos lóbulos das minhas orelhas que já de si eram espalmadas na pequena zona da cartilagem onde é possível apanhar um escaldão, se for contigo à praia que é o costume quando nenhum dos nossos neurónios trabalha. agora sendo assim, vamos à praia todos os dias, com os nossos cérebros espremidos até ao fim e as lágrimas empurradas para dentro dos nossos lóbulos tão cheios de orgulho. comi-te os olhos no outro dia, e tenho a dizer que não soube nada bem. vês sempre mais à frente desviado à esquerda que eu.
sim, meu amor, teve de ser. de qualquer maneira - pensei - os meus pés vão sempre ficar intactos dada a tua especialidade em mos massajares: enquanto pés para andar palavras para escrever, o que necessita de um cérebro para pensar. e enquanto o meu cérebro ajudar o meu coraçãozinho a bater do outro lado de mim, o teu, eu vou gostar de ti, num banho qualquer de sangue e chocolate destrutivo e extremamente prazeiroso. mas por favor pára de maldizer os meus lóbulos das orelhas.

2011-06-15

das saudades a dobrar

hoje ao lanche esperimentei três qualidades de bolachas e nenhuma me soube bem. e as tuas fotografias agora têm um certo magnetismo especial e incontornável. que não me dá para mais nada. pendurei uma na parede e ficou bonita. mas aquela parede... falta qualquer coisa. falta qualquer coisa à escola, às nove da manhã, às sextas um pouquinho antes das cinco. falta-me sentir que estás só um andar debaixo de mim, nem que seja a vender rifas, para ficar feliz. falta-me andar a pé contigo depois do almoço. faltas-me e eu não gosto disso.
por isso é que já falta pouco para mudar tudo mas continuar a ser, contigo, a ser nos teus braços, a deixar de escrever coisas melosas e sem nexo como esta.
porque meu amor, saudade não é para se sentir. as saudades são como as minhas enxaquecas: é atacar logo mal sombra de dúvida no olhar (às vezes no ouvido).
olá palavras. eu não vos disse que nas saudades era entrar a matar?