na minha cidade não há nada para ver: a minha freguesia é um conjunto de dormitórios inacabados, faltosos no que diz respeito às secretárias para estudar e às fotografias dos momentos importantes. não é que tenha tempo algum para a admirar - tenho ginástica à segunda, saída com amigas à terça, noite no facebook à quarta e janto com o meu namorado à quinta, sendo que nos dias que se seguem estudo e faço alguns tpc's -, nem tão pouco necessidade. tenho tudo o que quero, o meu quarto bem decorado e o meu guarda-roupa é o mais apetecível de sempre! quando era pequenina, atrapalhavam-me os passos rápidos das pessoas, a indiferença com que apanhavam o mesmo autocarro que eu quando ia ao parque dos pombos com a avó. ela andava sempre muito devagarinho, mas eu tinha paciência porque gostava muito dela. já morreu. hoje, compreendo que frete fazia quando me levava à pasmaceira das sombras das árvores, sempre as mesmas, sempre comigo, que só queria correr e dizer disparates. hoje teria, decerto, poupado a minha querida velha senhora a tal aborrecimento.
2011-10-22
2011-10-09
Deus não é só pessoas
e dum nada que inspiras
as imagens turvam,
excitam-te, as palavras dum nada
a base do teu pescoço, um prédio na cidade,
passam nas tuas veias e outros canais quaisquer
aço puro que te corta por dentro
correm outras atrás a dar beijinhos
e a electricidade que te transpira dos dedos escorre no papel
um presente de fel.
sinceramente era só para rimar, agora que só a desilusão duma calma obrigatória duma vitória ilusória marcada pelo sorriso das pessoas às coisas que bonitas que tu, e tu e tu e tu, lhes mostras realizada e satisfeita, o mundo um mar com barquinhos e gente feliz mesmo que choraminguices de quando em vez. não, querida, é só mais uma das terríveis mil alturas em que vais ter de te atirar para um dos lagos, refrescantes e cheios de gente feliz mesmo que gritos lacerantes de vez em quando, e previsivelmente cair no chão, agora que até as palavras te cortam e te fazem sangrar estrelinhas desperdiçadas, agora que só palavras em aço inoxidável agarra-te bem a elas que a cor é bonita, podes saltar, ficas sozinha mas agarrada a elas e não tens de temer.
2011-09-25
amor é#14
as maiores lutas não são com o chinfrim do sangue a espirrar uma alma qualquer. não são lutas onde se tiram olhos aos inimigos para depois se comerem fritos ao jantar, entre risos e champanhe. não vai ser, decerto, a luta onde correrás por montes, vales e guetos atrás de quem amas. e também não deves ir praticar tiro ao alvo ou a velejar naus raquíticas.
ninguém te vai aplaudir, muito menos te oferecerão garrafas de vinho e girassóis bem arranjados. vais perder aos olhos dos outros, tenho quase a certeza. ah, também não deve ser a famosa e utópica luta interior. aí, vais ter-te a ti sempre a teu lado. e não vais travá-la sozinha, não te penses brava heroína solitária para já que te desiludes! tens amigos, eu sei que tens - descansa, hás-de ter quem te ampare as lágrimas, caíram direitinhas em esforço de novela.
com um golpe fundo de sorte, pode ser que te calhe na rifa (na rifa, na rima) ficar com quem sempre amaste. se não, aprenderás a amar-te a ti, na tua segunda maior luta, todo o santo diferente dia a partir do zero. (por vezes dois dias em 24horas) e é assim o amor.
2011-09-24
amor é #13
e eu só quero a fama para que, daqui a 15 anos, quando infeliz e provavelmente já não soubermos um do outro, eu ir dar uma entrevista qualquer, falar de quando nos perdemos, quando saltámos vedações, quando fizemos juntos os melhores amigos do mundo, quando eventualmente cortámos as unhas dos pés um ao outro, e nos rimos muito, sozinhos, no meio daquela gente toda, e demos beijinhos e os velhos conformados e reformados e resingões (farta de adjectivos monótonos) em vez de mandarem vir connosco nos perguntaram o nome, se fazíamos yoga e tudo e tudo. quando eu fui feliz, dizia eu em frente às máquinas, com um sorriso breve de quem joga às cartas no parque central.
e no dia seguinte estarás tu em frente à minha porta verdeaguadocomamareloeazul, sentado a ler o jornal que nunca compras dado que é um desperdício se os há na internet aos molhos, nada romântico como eu sempre te conheci e amei e me queixei muitas vezes claro, e eu desci atarantada com os olhos inchados voltaste! caíram os dossiers todos mas tu voltaste, sempre soubeste que os meus dossiers iam ter fotografias do passado fenomenal que me proporcionaste como se tu viesses dum convite para festa e eu agradecida pelas horas formais que esses convites humanos nos proporcionam, que interessa isso, voltaste! ias-te casar comigo agora, ter um cão feio que se baba como tu na almofada, fazer teatros na sala, e eu finalmente deixaria de ser famosa, de ter máquinas robóticas avançadas de mais à minha frente, atrás de mim, agora não, a meu lado só tu, voltaste, vamos ser Reis do mundo e dar beijinhos aos velhos, e vamos ser velhos, ieiuiieiii!
2011-09-22
2011-09-14
amor é #12
não precisares sequer de ti para seres tu mesma.
das limpezas
e a dançar caí sangrei. acordei estremunhada, só e abandonada, como naquelas rimas que fazia quando as minhas palavras ainda timidamente poderosas, só assim sem todo o desdém que se ganha depois de muito pisar o mesmo chão. de tanto assim dançar ritmei o mesmo azulejo vezes e vezes sem conta - caí sangrei.
espero ser o hoje este dia em que acordei estremunhada e o meu o sangue que lavou para sempre as memórias do papel onde escrevi desde as rimas, digo, do chão onde dancei desde que o sapateado nas unhas dos meus pés. espero, não de pasmar a olhar para ti nas horas mortas, sem saber o porquê de nunca te ir esquecer na porra da minha vida que tem coisas de mais, um mundo inteiro veja lá, um mundo inteiro só para te perder e te esquecer quase. um mundo ideal, para mim e para aladino, era ter-te a ti e a um papel novo na cabeça todos os dias, percebes? sabes? eu caí e deitei sangue. porquê o sangue sinceramente? porquê sapateado, o velho, o desgastado, porquê a perseguição das rimas do quarto ano quando eu só te quero a ti e a um papel novo e limpo para sempre? porquê tanta coisa e eu sem espaço para dançar, as pessoas a espezinharem-me aquando o incêndio das suas almas? dançar em lume brando contigo, sempre foi escrever. assim, dancei contigo num papel novo para sempre.
2011-08-11
na França então frio
- Por favor, apertem os cintos de segurança e desliguem todos os aparelhos electrónicos. A viagem terá a duração de 2h45.
(porque é que será que duas horas e quarenta e cinco duram mais que uma vida? ela tem de dezasseis anos - estas duas a papaguear ao meu lado, num dizquedisse intermitente e aioqueeutefazia ao hospedeiro, bem que podem ser as suas melhores amigas. e agora, os seus dezasseis anos duraram tanto como a minha vida numa França de emigrantes simpáticos, bonacheirões e mal pagos - duas horas e quarenta e cinco, mais coisa menos coisa.
nesses dezasseis anos perguntaram-lhe pelo pai, decerto quase tanto quanto eu perguntei pela minha filha. o namorado - Deus, já tem idade para namorar! - abraçou-a quando as lágrimas, daquela saudade embrenhada nas marés de lua de um país que já nem sei se meu, romperam ao lembrar um pai desterrado do qual não conhece nem mimo nem coração. e em vez de a querer só minha, cruzei os dedos e rezei, cheio de dor nos olhos - e nos ouvidos apertados do avião - para que um moço de tento na língua e técnica no ferro de engomar - tenho a certeza que ela não sabe passar a ferro, igualzinha a mim que não sabe passar a ferro - a proteja dos monstros da vida, dos bichos na parede, dos homens maus.
quero, ainda e apesar (a pesar também), dar-lhe tudo. a mousse e os biscoitos do avião que dou a estas rapariguinhas ternas e atrevidas, que tanto dão também de si nas músicas que cantam baixinho e quando me perguntam, rosadas de vergonha, se quero jogar às cartas. dar-lhe-ia tudo, a sério que sim, há dezasseis anos para cá se as suas fraldas não me custassem a ida para França. como é que em dez segundos, depois de receber a bagagem, lhe dou esse tudo de dezasseis anos? as papas à boca, os castigos, os beijinhos no dia de anos, as anedotas às suas melhores amigas - pensando bem devia ter jogado às cartas -, o momento aterrador em que me apresenta ao rapaz que lhe dá a mão?)
- A Lufthansa deseja-lhe uma boa estadia em Lisboa.
(...)
- Pai.
- Mariana.
(como é possível um tudo de dezasseis anos bem à minha espera nestes não dez, dois segundos?)
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