2011-08-11

na França então frio

- Por favor, apertem os cintos de segurança e desliguem todos os aparelhos electrónicos. A viagem terá a duração de 2h45.
(porque é que será que duas horas e quarenta e cinco duram mais que uma vida? ela tem de dezasseis anos - estas duas a papaguear ao meu lado, num dizquedisse intermitente e aioqueeutefazia ao hospedeiro, bem que podem ser as suas melhores amigas. e agora, os seus dezasseis anos duraram tanto como a minha vida numa França de emigrantes simpáticos, bonacheirões e mal pagos - duas horas e quarenta e cinco, mais coisa menos coisa.
nesses dezasseis anos perguntaram-lhe pelo pai, decerto quase tanto quanto eu perguntei pela minha filha. o namorado - Deus, já tem idade para namorar! - abraçou-a quando as lágrimas, daquela saudade embrenhada nas marés de lua de um país que já nem sei se meu, romperam ao lembrar um pai desterrado do qual não conhece nem mimo nem coração. e em vez de a querer só minha, cruzei os dedos e rezei, cheio de dor nos olhos - e nos ouvidos apertados do avião - para que um moço de tento na língua e técnica no ferro de engomar - tenho a certeza que ela não sabe passar a ferro, igualzinha a mim que não sabe passar a ferro - a proteja dos monstros da vida, dos bichos na parede, dos homens maus.
quero, ainda e apesar (a pesar também), dar-lhe tudo. a mousse e os biscoitos do avião que dou a estas rapariguinhas ternas e atrevidas, que tanto dão também de si nas músicas que cantam baixinho e quando me perguntam, rosadas de vergonha, se quero jogar às cartas. dar-lhe-ia tudo, a sério que sim, há dezasseis anos para cá se as suas fraldas não me custassem a ida para França. como é que em dez segundos, depois de receber a bagagem, lhe dou esse tudo de dezasseis anos? as papas à boca, os castigos, os beijinhos no dia de anos, as anedotas às suas melhores amigas - pensando bem devia ter jogado às cartas -, o momento aterrador em que me apresenta ao rapaz que lhe dá a mão?)
- A Lufthansa deseja-lhe uma boa estadia em Lisboa.
(...)
- Pai.
- Mariana.
(como é possível um tudo de dezasseis anos bem à minha espera nestes não dez, dois segundos?)

2011-08-02

como se uma almôndega gigante num frigorífico, no maior dos maiores mais incríveis niveís de refrigeração, bem no meio da minha garganta que não anda nem desanda, e depois parece que não sai dali nunca porque as coisas algum dia haviam de mudar e na Alemanha afinal há frio.

2011-07-25

wc pato

sempre sonhei vir aqui de mochila às costas e amor pela mão. é de repente primorosa a maneira como pegas nela agora que nós aqui, no sítio onde sempre sonhei vir, mesmo que com as tuas cócegas chatinhas e eu a querer ver a paisagem, tu a tirares as tão tuas fotografias aos passarocos bonitos e eu a querer dar beijinhos. quando era mais nova e andavamos há uns quantos meses (nós que pensávamos ser tanto tempo!), perguntáva-me umas três vezes por dia se era assim, tão engraçadotes, que nos iamos continuar a amar. e neste instante é de repente que te vejo a pegar assim na minha mão e apetece-me tanto dar-te uma gargalhada e um beijinho... 
hoje à noite como já somos grandes, as paisagens e os pássaros vão ficar na janela e eu, que paraíso!, vou ficar nos teus braços cheia de cócegas e beijinhos. vamos amar-nos como nos filmes de adultos que somos e rir-nos de nós como as criançolas que nunca deixámos de ser.vou poder, assim, dizer que sempre sonhei vir aqui com o teu amor na minha mão.
enquanto a noite não vem, anda mais depressa, o Gerês é muito grande e a mochila cansa-me nas costas! vamos dar beijinhos aos pássaros nas cascatas e vamos os dois tirar fotografias pelo meio das pedras. hão-de orgulhar-se de nós!
e agora tenho de sair da casa-de-banho e olhar para as nuvens todas ao meu lado nesta máquina que me leva não sei para onde pelo meio de dores de dentes e ouvidos. quem é que inventou o turismo além-fronteiras? e porque raio há janelas nos aviões se é tudo tão inalcançável à distância duma queda que passamos a viagem a imaginar? e ainda por cima não vens comigo, sentado no banco da janela que eu não gosto?! vou voltar para a casa-de-banho. irra, viva a realidade aumentada das sanitas.

2011-07-13

o amor não faz qualquer tipo de sentido e qualquer tipo de sentido não faz um amor deste texto

espremeste-me o cérebro. e com isto tudo bem espremidinho, sobraram os lóbulos das orelhas apenas e, kinder surpresa!, não importa. gostas dos meus lóbulos das orelhas e o meu cérebro é dispensável nestes dias. verdade? agora as lágrimas vão passar a correr pelos lóbulos das minhas orelhas que já de si eram espalmadas na pequena zona da cartilagem onde é possível apanhar um escaldão, se for contigo à praia que é o costume quando nenhum dos nossos neurónios trabalha. agora sendo assim, vamos à praia todos os dias, com os nossos cérebros espremidos até ao fim e as lágrimas empurradas para dentro dos nossos lóbulos tão cheios de orgulho. comi-te os olhos no outro dia, e tenho a dizer que não soube nada bem. vês sempre mais à frente desviado à esquerda que eu.
sim, meu amor, teve de ser. de qualquer maneira - pensei - os meus pés vão sempre ficar intactos dada a tua especialidade em mos massajares: enquanto pés para andar palavras para escrever, o que necessita de um cérebro para pensar. e enquanto o meu cérebro ajudar o meu coraçãozinho a bater do outro lado de mim, o teu, eu vou gostar de ti, num banho qualquer de sangue e chocolate destrutivo e extremamente prazeiroso. mas por favor pára de maldizer os meus lóbulos das orelhas.

2011-06-15

das saudades a dobrar

hoje ao lanche esperimentei três qualidades de bolachas e nenhuma me soube bem. e as tuas fotografias agora têm um certo magnetismo especial e incontornável. que não me dá para mais nada. pendurei uma na parede e ficou bonita. mas aquela parede... falta qualquer coisa. falta qualquer coisa à escola, às nove da manhã, às sextas um pouquinho antes das cinco. falta-me sentir que estás só um andar debaixo de mim, nem que seja a vender rifas, para ficar feliz. falta-me andar a pé contigo depois do almoço. faltas-me e eu não gosto disso.
por isso é que já falta pouco para mudar tudo mas continuar a ser, contigo, a ser nos teus braços, a deixar de escrever coisas melosas e sem nexo como esta.
porque meu amor, saudade não é para se sentir. as saudades são como as minhas enxaquecas: é atacar logo mal sombra de dúvida no olhar (às vezes no ouvido).
olá palavras. eu não vos disse que nas saudades era entrar a matar?

2011-05-29

'não tenho culpa, não tenho não tenho não tenho

se dizem que o amor muda o mundo, a gente entende que é o nosso e senta-se feliz da vida, a exigir ursos de chocolate. se dizem que o amor faz as gentes felizes, pensamos nós que são as duas pessoas intervenientes num amor que corta a respiração do coração num só golpe potente e audaz. se dizem que o amor não nunca se desperdiça, então dois amantes não se poderão separar.
os dias passam, as folhas caem das árvores, o aquecimento global continua, as pessoas cantam em coro "neste mundo que não sabe amar", e os apaixonados deste vida não entendem, não atingem que quando há amor o centro do mundo passa a ser não dois umbigos juntos para todo o sempre, mas todos os umbigos da população mundial (contando com todos aqueles que contêm em si mil e quinhentos umbigos, compram os vestidos favoritos de toda a gente, mandam lixo ao chão e reivindicam um planeta melhor só por si). e se dizem que o amor se partilha, não é tão-só numa cama apesar disso ser bom como tudo, mas é para o dar ao homem do supermercado, ao atrasado mental das finanças, à sem-abrigo-emocional que pára todos os dias no café! que o amor dá vontade de gritar ao mundo 'eu sou feliz!!!!!!!!!!!!', todos os que se apaixonam sabem de cor e salteado; acrescentar a essa repetidíssima expressão um 'tu também podes ser!!!!!!!!' não tem mal nenhum acho eu.
e portanto o que eu queria mesmo dizer, e aproveitando que amor e missão não dão para sair das minhas mãos por estes dias, é que cabe aos que acham que ainda dá para amar um bocadinho, neste sítio de rios poluídos e cabeças espezinhadas, mudar o mundo.

2011-05-25

da insuficiência da arte

conheci-te a história completa das tuas antologias de poemas divergentes, os teus, nunca revelados na arte desmedida e popularuxa que teimavas em criar de papéis e tesouras até tão tarde no quarto ao lado. conheci-ta e, pintando-a de tons mais clarinhos como as pétalas que te vesti nos meus próprios olhos, contei-a aos outros pelo mundo, encaixada numa narrativa incipiente, estilo barba-mal-feita, vida minha com um destino do qual nunca quis saber.
conheci-te a história, completa na minha boca, e aceitei sem esforço que viesse dos livros e não dos teus cantos soturnos, dos teus vestidos nos quais reconheci-a sempre algum tecido que morou na nossa casa e que eu pensara ter desvanecido, da tua boca digo-o já, da tua presença na minha vida insuficiente desde que tiveste idade para ir e espalhar a tua arte, ao fim ao cabo a arte de viver de leve sorriso no coração.

2011-05-17

amor é #11

e o amor é, a partir não de hoje mas de há já algum tempo que não te disse, eu a amar-te todos os dias numa coisinha minima diferente seja cada um dos sinais que descubro na tua cara seja a tua cara quando te chateias comigo e fazes crrrrrrrrrck ao meu coração; o amor é e já foi nós a amarmo-nos sem saber numa distância de paredes grossas de salas de aula antigas para quem devia aprender na rigidez de um pátio, nós a amarmo-nos nos nomes feios e nas torturas meio a brincar (nunca sei se meio a brincar se meio a sério); e o amor vai ser as pessoas a descobrir que ainda há estúpidos como nós, num amor que sobrevive autista e cheio da ciência da parvoíce e da falta de razão, ainda há estúpidos como nós que se empurram e gritam meio a sério (nunca sei se meio a sério se meio a brincar) e dão beijinhos de todas as maneiras e feitios que lembram ursinhos abandonados e países longínquos. dado está que o amor é, meio a sério meio a brincar sem tirar nem por, os nossos beijinhos que vão mudar o mundo que nesse dia vai aprender a cantar monocórdicos a abanar os tótós da cabeça, e a sorrir ao ver que ser e amor é, a partir daí mas de há já muito tempo, praticamente o mesmo tirando as letras e a conjugação.