2010-02-19

sabes quem é?

sabes, hoje fui outra vez. fui, sabes. nao interessa quem, eu não fui de certeza! mas fui, fui sabe-se lá quem de sorriso na cara quando bati com a porta da rua e reparei que a roupa que trazia era demasiado leve para o dia cinzentão. fui, quando ansiei por pessoas que não as minhas. mas tu, tu só sabes que eu fui. vamos chamar-me Dulce.
Dulce, quando te vi estavas sentada à chinês na berma da estrada, com o sol a dar-te no cabelo, a cantares com os teus músicas da idade dos porquês. eu estava de fora, mas Dulce, aquele cabelo era meu. aquela voz esganiçada era minha e os teus eram as pessoas que ainda hoje me dão forma à alma. mas Dulce, eu não me importo, hoje foste-me outra vez. de coração aberto e desastrado, de boca aberta a olhar para um arco-íris invertido. Dulce, hoje nem reparaste no meu coração magoado, teu outra vez. limitaste-te a pintar sorrisos às cores. hoje fomos outra vez.

2010-02-16

ele sabia que o que tinha em casa já não era mais a pequenina que fugia dele e se despia nos centros comerciais. sempre teve medo do que ia saber se tentasse descobrir o que ela fazia da vida depois de lhe saltar para cima e lhe fazer cócegas nas dobras dos joelhos, para depois arranjar o cabelo, cantarolar um verso qualquer em jeito de despedida e subir a rua que ele já subira vezes sem conta, depois de lhe despentear o cabelo amachucado entre os lençóis. apesar de lhe saber de cor o gosto esfusiante e a fobia a hábitos integrantes, tinha medo que ela algum dia deixasse de esconder esparguete cru debaixo da secretária para o ir comer enquanto pintava prendas de aniversário, por meio de versos em jeito de até para o ano.

adivinhava-lhe a presença pela voz estridente que tantas vezes lhe debitara matérias nem sabia quais, mais monólogo que diálogo fogoso. percebia-lhe o mau humor quando a via de cócoras na dispensa à procura de réstias impensáveis de chocolate.

mas temia por ela, que de gosto esfusiante estava cheia, e adivinhava-lhe os sonhos amazónicos e devaneios a um passo de se realizarem. tremia no alto da sua barba mal feita quando esta lhe cantarolava versos, pelo terror da despedida.

2010-02-14

pronto

estou cansada. doem-me os pés, que eu ontem matei as saudades todas que tinha do pimba! nunca me apeteceu tanto descomplicar. a minha mãe acabou de mandar mensagem para pôr a mesa. é por estas e por outras que odeio as novas tecnologias. nunca me apeteceu tanto dizer coisas sem sentido. tenho saudades de comer bananas na praia. gostava de saber o que é que o dia 14 de fevereiro tem assim tão de especial, quando me decidir a ter um namorado, vou festejar esta coisa dia 16, tenho dito. aiii, os meus pés. foi tão giro. e a todos os que me viram em sentido ontem, um obrigada por fazerem as minhas férias de carnaval valer a pena.

2010-02-10

fobia

estavas à procura das chaves. sempre achei incrível essa tua paixão por malas pequenas quando a moda é o exagero, e essa impossibilidade de encontrares seja o que for dentro delas. subias as escadas apenas pelo instinto de anos rotineiros, e pelos olhares repentinos que lançavas aos degraus frios, amarelados. estavas cansada. nunca percebi porque é que dás sempre mais nos dias normais, e nos que fazem a barriga da gente passear de metro tu andas aí como se as próprias borboletas falassem contigo. hoje era um dia normal, e tu estavas cansada por causa dessa tua paixão pela pequenez. mas num dos olhares repentinos lançados aos degraus gélidos, as borboletas deixaram a fala das flores. não percebo. são só pontos e rectas pretas vivas em movimento, pensa lá para contigo. mas não. estatelaste as omoplatas contra a parede gélida tal qual os degraus e decidiram, perante a tua pequenez, tirar todo o ar que dançava nas tuas veias. cravaste as unhas nas mãos, bem sei. tentaste subir as escadas apenas com o instinto de anos rotineiros, mas estes tinham ido falar com borboletas lá fora. tropeçaste e o excesso de ar ja te fazia arder os olhos. levantaste-te e a dança animal continuava. correste a olhar para trás, abriste a porta com instinto de saudade. fechaste-a, estatelaste as omoplatas nela e o mar voltava a ti. era e é um dia normal, pensa lá para contigo.

2010-02-09

tenho dito #7

QUE CONTINUO SEM PERCEBER PORQUE É QUE DIZEM QUE NÃO TENHO PERFIL PARA CASAR.

2010-02-07

castelo

hoje não. hoje está um dia frio, luvas e cachecol, demasiado para me vires aquecer na tua ânsia toda de agradar. hoje não, até parece que não sabes que faço de propósito quando me esqueço das luvas na cómoda da entrada. hoje não, hoje não venhas. sabes que gosto de subir estas ruas sozinha, pasmar nas muralhas do castelo a olhar para a casa nelas plantada. há anos que cá não vinha, culpa da família que pouco gosta de recordar. para mim é uma das muitas vidas que levo. por isso, olá avó da mãe, que nunca gostei de te chamar bisavó. sei que nunca fui a tua netinha, nasci em vésperas de revolução e nunca ansiei agradar. mas amaste-me, amas-me, à mesma, como eu ainda ser fazer. subi aqui hoje, de mãos frias, mais para te agradecer que para amar mais uma vez o coração de Lisboa. deixo isso para depois, quando apanhar o sol a jeito. ainda te vejo aí, a fazer croché e a falar com os turistas, nessas escadas fracas para a tua altivez sábia toda. eras deliciosa de se ouvir, e deste-me a descobrir a única coisa que neste momento me agarra a mão. deste-mO a descobrir. a Ele já lhe agradeci poder falar contigo assim hoje, sentadas nas escadas as duas.
a mãe disse que estavas bonita quando foste ter com o avô Bernardo. mas não foi por isso que deixou de chorar. nem o teu netinho parou de tremer. estava lá uma senhora - tu gostas muito dela - que era a única a olhar para mim naquele dia. franzia a testa, à procura da minha reacção. do alto dos meus 9 anos da altura, sabia que não era a confusão dela que importava. era a tua serenidade ao ver a minha calma. subi as escadas e sentei-me no chão com o terço que me deste nestas escadas fracas onde pasmo agora. nunca liguei muito a terços. mas deste-mO a descobrir, e eu perguntava-te se já Lhe vias os pés.
agora sei que tu também me agarras a mão fria, hoje. sei-te bem o tom de pele, está-me no sangue o teu feitio resmungão e sincero, de quem sabe amar, mais que Lisboa. amo-te Eduarda, que me deste a conhecer.

2010-02-06

amor é #4

ouvir as piadas mais estúpidas, mais imbecis e mais azeites que existem, abanar a cabeça e largar um sorriso. um sorriso daqueles pfffa. é inventar histórias para o coelho da vizinha, a comer pipocas numa casa que cheira a queimado porque o nosso menino, enfiado num pijama sujo de magnum de chocolate, insiste na ideia de que as pipocas já feitas vão amaldiçoar o planeta. é não precisar de exibições de parvoeira para fazer rir alguém. é ligar à hora de almoço só para dizer que se está a comer uma banana. e dizer por entre dentes que por ele abdicava da minha fruta preferida. é ouvir um 'hum, hum' do outro lado da linha, e ganhar o dia por isso.

2010-02-02

ressaca

eu sei que sou esquecida. desvairada, isso. não, não te aproveites de mim outra vez, sinto-me culpada mas não tanto. não tanto para me fazeres desaparecer. não deixes deixes isso aí. epá, mete-me isso no frigorífico! não, não vês que não estou pronta?! Os sapatos, Frederico? Desvairada, isso. mete aquilo no frigorífico e encontra-me os sapatos. oh, é só para nos organizarmos! não querias tanto chegar a horas? é só um jantar! sim, o João faz anos. mas qual é a tua prioridade afinal?! assoa-te. raios, perdi o fio outra vez. os sapatos, ah, obrigada. assoa-te! Frederico, não eram as horas? mas qual é a tua prioridade afinal?! nã, vai tu. não encontro os sapatos, está tudo mole no frigorífico, o João faz anos. vai, é muito mais que um jantar, certo? exacto.
(pum, chaves rodam.)
Frederico não, não tanto. não vás, que desapareço.